O exercício da fé nos ajuda a viver plenamente.


Imagem de Gerd Altmann por Pixabay 


   Hoje, no Brasil, precisamos ter cautela e cuidado na hora de falar sobre religião. Infelizmente, a fé individual e particular, em muitos casos, é usada para justificar preconceitos, julgamentos e condenações. Em nome da ideia que as pessoas têm de Deus ou Jesus, alguns, que defendem cegamente sua própria fé, oprimem, marginalizam e descriminam quem pensa diferente, ou acredita em coisas diferentes.

 No entanto, ter um lado espiritual desenvolvido e ativo pode ser muito benéfico para nossa saúde mental. A raiz da palavra religião é religare, que significa religamento, elo com o divino. Se partimos do parâmetro que Deus é fonte de amor, fonte de bondade e compaixão infinita, a proximidade consciente e saudável com Ele só tende a nos trazer bons frutos.

   Quando perdemos o chão, nas horas mais difíceis, quando nos vemos totalmente sozinhos, o desespero pode nos fazer chegar a um beco sem saída. Nessas horas, na completa solidão, a única companhia que podemos ter é a compreensão da ideia de que há algo superior que nos ampara e nos acolhe.

   Ter uma espiritualidade viva, como base da nossa moral e do bem viver, também é útil para desenvolvermos nosso autoconhecimento e nossa percepção sobre o mundo. Independente da religião, a essência de todas, quando há respeito aos seus princípios básicos, é o respeito ao próximo, o desenvolvimento do amor e a busca pela evolução individual, a reforma íntima.

 Durante anos, negligenciei minha necessidade de ter uma conexão espiritual e eu cheguei ao extremo de negar a existência de Deus. Só depois de muitas quedas, crises e dores, venci minha teimosia, meu egocentrismo e meu orgulho para encontrar sentido na doutrina espírita. Hoje, estudo sobre a vida espiritual e vejo um mundo maravilhoso que me dá consolo e paz.

 Há pessoas, claro, que não têm necessidade nenhuma de ter um elo com Deus e, mesmo dentro da sua descrença, são excelentes corações, bondosos, caridosos e humildes. Tenho amigos assim. Não raro, eles seguem inconscientemente, de forma natural, leis cristãs que muitos que se orgulham de dizer que são cristãos descumprem, violam ou simplesmente não seguem.

   Porém, opinião pessoal minha, ter fé em algo que transcende a matéria e nos liga à infinitude do universo nos fortalece e nos enche de energia, esperança e otimismo em relação ao futuro. Porque passamos a acreditar que tudo é passageiro e transitório, inclusive nossas dores e nossas angústias. A única coisa eterna é o amor do Criador por nós.

   Eu, particularmente, sou muito grato a Deus e à espiritualidade amiga por ter me dado estrutura para me recompor nos meus momentos mais críticos. Lógico que a minha resistência e das pessoas que me amam, principalmente da minha mãe, também contam. No entanto, sem este alicerce do mundo invisível creio que eu teria sucumbido ao lado mais terrível do Transtorno Bipolar.

   Se tens tua fé, te apega a ela e demonstra gratidão por seres maior com esta riqueza dentro de ti. Se não tens ou não consegues ter fé em nada fora do mundo material, não te preocupa. Às vezes a gente não tem aptidão para o exercício da espiritualidade. Tem fé, ao menos, em ti e no teu poder criador de transformar e transmutar as dificuldades em coisas boas.

  Enquanto houver âncoras para que possamos nos atracar no meio da tempestade, devemos usá-las, com respeito e sabedoria. Deus, certamente, olha com mais carinho por quem está sofrendo e estende a mão para enxugar as lágrimas. Ele não faz nada sozinho, claro. Levantar e se pôr a caminhar novamente também é responsabilidade nossa. Mas com Deus o fardo fica mais leve. E será assim para nós todas e todos. Quem assim seja.





Carnaval é festa. Mas podes só relaxar a cabeça, e tudo bem.

Imagem de Jill Wellington por Pixabay 

   Nessa época do ano, boa parte dos brasileiros aproveita o Carnaval e o feriado prolongado para viajar para balneários, festejar, extravasar e se entregar a excessos. Podemos ter nossos valores, nossas opções e nossa postura diferente, mas devemos tentar não julgar e respeitar a escolha de quem opta por viver o carnaval na sua essência.

   O problema, justamente, é quando nos sentimentos mal por não estarmos participando da grande festa ou nos sentirmos coagidos a integrar, quase à força, a euforia geral. Vemos as pessoas pulando, bebendo e beijando e, às vezes de forma inconsciente, acreditamos estar fazendo algo errado por agirmos diferente.

   Quem tem temperamento mais contido, tímido, e personalidade mais introvertida e reservada, pode se sentir particularmente deslocado em meio ao clima de descontração e irreverência. O Brasil pulsa diferente no Carnaval e, quem não entra na dança, não raro se sente como um peixe fora d'água.

   Mas a verdade é que não há nada de errado em escolher passar o Carnaval em um retiro tranquilo, longe da confusão. Ou mesmo em casa, lendo, maratonando séries na Netflix, dormindo ou vendo bobagens na internet. Cada um tem uma individualidade própria e tu não precisas te sentir mal por não ser igual à maioria.

   Não precisamos agir de forma padronizada e seguir cegamente o que o senso comum nos impõe. Quando todo mundo tenta nos obrigar a seguir um caminho que não concordamos, precisamos ser firmes e condizentes à nossa identidade. Ninguém precisa se trair apenas para agradar terceiros que não respeitam teu modo de ser e pensar.

   O mundo seria um lugar muito chato e desinteressante se todos gostassem exatamente das mesmas coisas. A riqueza da vida está na diversidade e na forma como somos plurais e únicos, à nossa maneira. Se todos se divertissem apenas usando estes dias para beber muito, ou apenas para ficar na internet compartilhando memes no Facebook, as coisas não funcionariam direito.

   Acredite: não há problema nenhum em usar a folga para dormir por horas a mais enquanto outros estão fantasiados nos bloquinhos. Ninguém está vivendo mais que ninguém. O valor da vida é medido pelo que nos traz paz de espírito. Ele é subjetivo e pessoal. Com consciência e responsabilidade, tem espaço para todo mundo. 

   Então, neste feriado, aproveite o tempo livre para fazer o que faz bem para o teu coração, mesmo se isso for algo simples e singelo. Respeitando quem está na folia, mas sem culpa por não estar lá. O bem-estar de cada um de nós deve ser nossa prioridade e estar acima de (quase) qualquer coisa. 





Para o bem da saúde mental, boas doses de amor.

Imagem de Cheryl Holt por Pixabay 

   Existem certas dores, problemas, traumas, tropeços que, simplesmente, fogem ao nosso controle e independem da nossa vontade. Eles, de forma natural, acontecem. São situações adversas que nos escapam das mãos. Não temos muito o que fazer a respeito delas, a não ser enfrentá-las.

   Tu já deves ter te visto, alguma vez, em uma posição assim: a vida se impõe com força e tu não consegues achar uma saída para o contratempo. Tu te sentes impotente e frustrado. Às vezes, o desespero parece um beco sem saída e a solução parece ser impossível. A dor corrói e sufoca o peito.

   Mas, então, quando tu menos esperas, alguém te estende a mão. Pode ser um gesto simples, como a disposição para ouvir um desabafo ou um acompanhamento ao psicólogo. O que, talvez, possa ter surgido do lugar mais improvável, se revela como um ato de generosidade enorme que te salva naquele momento.

   O amor, o afeto, a caridade, não precisam necessariamente ter conotação romântica e sexual. Quando Jesus, há dois mil anos, pediu para que amássemos ao próximo como a nós mesmos, ele falava de um tipo de amor descompromissado que não estava ligado à carne ou à posse.

   Um dos fatores que mais influem no equilíbrio e na estabilidade da nossa saúde mental é nos cercar diariamente de pessoas que amamos. É ter a certeza de que estamos próximos de quem tenta nos compreender e nos aceita do jeito que somos, com nossas qualidades e nossas limitações.

   O amor é o combustível mais potente que a natureza humana é capaz de criar e, entre todos os remédios, é o único que oferece uma possibilidade de cura integral. O amor próprio, aliado ao amor de pares, família e amigos, é protetor contra males do corpo, da mente e do espírito.

   Sorte de quem tem amores ao seu lado e ama com entrega, retribuindo o sentimento. Porque se existe um bem mais valioso que qualquer conta bancária recheada, esse bem é o amor verdadeiro. Pode ser excesso de romantismo e falta de percepção da realidade, mas, de verdade, acredito que o poder desse sentimento divino é a resposta para quase todos os dilemas do mundo de hoje.

   Se nos propuséssemos a amar mais e melhor, certamente, adoeceríamos menos, haveria menos guerras, desigualdade social, preconceito e conflitos sociais. Enlouqueceríamos menos, tomaríamos menos remédios, teríamos menos problemas emocionais e desgastes psíquicos, pois haveria suporte e nos comprometeríamos mais uns com os outros.

   Sei que corro o risco de soar idealista, utópico e sonhador, porém, para mim, a resposta para tudo que nos aflige pode ser resumida na essência do amor. É ele a base da nossa saúde e sustento nas horas mais difíceis. E, enquanto eu tiver a capacidade de escrever e fazer arte, é pela valorização dele que vou lutar. Porque, se os problemas e o caos do mundo são grandes, as possibilidades do amor são infinitamente maiores. Porque ele é imenso, como somos quando o comungamos.


Tudo bem não estar bem o tempo todo.

   
Imagem de Sasin Tipchai por Pixabay

   A sociedade exige de nós uma postura isenta de erros que é difícil manter 24h por dia. Precisamos ser produtivos, equilibrados, proativos, multitarefas, simpáticos e mais um monte de outras qualidades requiridas para evoluir num mundo cada vez mais competitivo e individualizado.

   A verdade é que desaprendemos a lidar com nossos sentimentos. Na ânsia de alcançarmos a excelência aos olhos dos outros, fomos nos distanciando da nossa essência. A obrigação de sempre agradar nos afastou das nossas verdades e nos forçou a ultrapassar nossos limites.

   O resultado é que estamos cada vez mais adoecidos, psicologicamente, emocionalmente e afetivamente, mas fomos condicionados, na maior parte do tempo, a esconder isso. Abrimos mão de buscar nossa cura pela censura que nos impossibilita de demonstrar qualquer sinal fraqueza.

   Mas, a verdade é que não precisamos ultrapassar nossos limites ou fingir que estamos totalmente bem, mesmo quando não estamos. Não somos robôs. Somos suscetíveis a problemas, dificuldades, contratempos e outros fatores que afetam nosso equilíbrio e estabilidade.

   Não precisamos nos sentir culpados por aparentar estarmos mais sensíveis que o normal ou com as emoções mexidas, num dia qualquer. A vida nem sempre é amigável ou serena. Tudo bem parar, respirar fundo ou mesmo chorar um pouco, às vezes. 

   Fraqueza não é reconhecer que não se está tão bem e pedir ajuda. Fraqueza é desconsiderar a dor do outro e, ao invés de estender a mão, apontar o dedo. Independente do que fizermos ou sentirmos, terá sempre alguém para nos julgar. Precisamos ser resilientes e mais firmes que isso.

   Certos de que estamos dando nosso melhor, tenhamos paciência, indulgência e amor para conosco na intenção de respeitarmos nossa individualidade e nossos sentimentos. Plantemos coisas boas dentro de nós para colheita ser produtiva.

    Assim, tudo bem não estar bem o tempo todo, desde que tenhamos sempre a disposição e o carinho para melhorar e crescer internamente, respeitando nosso tempo e nosso coração.

Depressão não é uma escolha voluntária.

Imagem de Gordon Johnson por Pixabay.
   Ter depressão é, com frequência, lidar com a incompreensão da maioria das pessoas. É difícil explicar para os outros que é possível estar melancólico, triste, sem energia ou vontade de fazer as coisas, mesmo sem uma causa óbvia e aparente. Os conhecidos demandam uma explicação objetiva que tu não consegues dar. Tu te perdes de ti. No fundo, não sabes exatamente porque estás tão depressivo, só sabes que não é uma escolha voluntária tua, que não deverias ter culpa por isso.
   O que maltrata na depressão não é, exatamente, seu fator incapacitante. Não é o excesso de sono, a falta ou exagero de apetite, a dificuldade para fazer a higiene diária, a ansiedade maltratando o peito ou mesmo os pensamentos invasivos perturbando à noite. O que, realmente, maltrata é que tu te sentes impotente diante da tua própria mente, confuso em relação aos teus sentimentos e pensamentos que angustiam. Tu te tornas uma prisioneira de ti mesma.
   É preciso muita força, garra e determinação para quebrar esse ciclo vicioso de sofrimento, reconhecer as limitações, e dar um passo adiante. Sem dúvida, buscar ajuda médica e psicológica não é garantia, cem por cento, de cura, já que parte desta cura depende exclusivamente de nós. Porém, é uma etapa fundamental para restabelecer a paz de espírito e restaurar o equilíbrio mínimo que perdemos. Temos que ter fé nos profissionais capacitados para nos atender e na ciência que embasa o trabalho deles.
   Fora o preconceito e a discriminação, a vergonha que machuca quem possui um transtorno mental é compreensível e deve ser respeitada. No entanto, ela não deve servir como barreira que nos impeça de caminhar em frente e buscar melhorar, gradativamente, respeitando nosso tempo particular e individual. Daqui de onde estou, tendo passado por tanta dor que vocês nem imaginam, posso dizer que vale a pena lutar por nós e não desistir de viver. Permita-se ser amparado e acolhida. Há possibilidades incríveis dentro de ti. Tu mereces experimentar cada uma delas.

“Mais louco é quem me diz”: a crueldade por trás da psicofobia.

                                              Imagem de Ryan McGuire por Pixabay.


   Quem possui um transtorno mental, seja depressão, transtorno bipolar, ansiedade, enfim, já deve ter, alguma vez na vida, sofrido algum tipo de preconceito ou discriminação. Pode ter sido explícito ou implícito, uma frase ofensiva ou um olhar maldoso. Independente do gesto, a única certeza é que a ação, provavelmente, machucou e feriu. É a chamada psicofobia, que, de tão perigosa, pode até matar.
   Vivemos em um mundo muito doente, física e psicologicamente. Ao mesmo tempo em que se avançam as curas para as doenças e a medicina evolui seus tratamentos, uma parcela significativa da população padece de enfermidades que não dá conta de resolver.
   Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, até o final desta década de 2020, a depressão será a doença mais comum do mundo. Por que será que, mesmo sendo tão popular, ainda há tantas pessoas que têm um monte de preconceitos contra a doença e outras do gênero?
   A verdade é que tudo que não é compreensível objetivamente e não pode ser interpretado de forma lógica é vítima de preconceito. Muitos descriminam aquilo que desconhecem ou não entendem. Ao invés de tentar compreender e se informar, hostilizam e ofendem com seu egocentrismo, sua arrogância e suas crenças pré-concebidas.
   Quem convive com um diagnóstico de transtorno mental precisa de amparo, afeto e empatia. Cuidados especiais e atenção redobrada porque, temporariamente, a pessoa fica parcialmente incapacitada de gerir suas emoções, ações e sentimentos.
   A psicofobia, em casos extremos, pode levar alguém fragilizado e com pensamentos suicidas à morte. É uma irresponsabilidade sem tamanho participar ou fomentar apoiando ataques a indivíduos vulneráveis e desequilibrados emocionalmente.
   Boa parte da sociedade tende a rotular portadores de transtornos mentais como “loucos”. O que poucos sabem é que “loucura”, tecnicamente, é um estado patológico complexo caracterizado por surtos psicóticos e crises agudas. O paciente perde completamente o controle de si.
   A imensa maioria dos portadores de transtornos mentais não se enquadra nessa categoria. Os estados não são tão graves, boa parte do tempo. Existe autonomia. Não são “loucos”. Com o tratamento médico e psicológico adequado, além do esforço próprio, ninguém permanece mal e é perfeitamente capaz de viver uma vida plena.
   Psicofobia é fruto da ignorância, do desprezo ao próximo, da carência de afetividade, da intolerância e da preguiça de se informar melhor. Deve ser combatida sempre que possível, de modo racional e ponderado, com fatos e argumentação. Porque, quem não vier para somar e ajudar no nosso tratamento e na nossa vida que, por favor, ao menos faça a gentileza de não atrapalhar.